terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Rapaz que se apaixonou pelo Vento

image by ChrissieCool (deviantART)


Agora que mais um exame ficou para trás e estão recuperadas horas de sono, deu-me aquela vontade de escrever! Habitualmente prefiro escrever sobre algum pensamento que naturalmente me vai ocorrendo, é uma boa maneira de expor as ideias. Problema começa quando estamos numa época tão frenética e intelectualmente direccionada para o conhecimento dos outros, que penosamente absorvemos com grande esforço de livros e sebentas. Isso não seria mau se daí partissem as nossas opiniões, claro que as nossas opiniões não caiem bem, na maioria das vezes, numa folha de exame! Mas não quero falar sobre isso! Já me basta ter que os fazer todo o santo mês!


O que me resta então são aqueles pensamentos que se tem enquanto esperamos para adormecer ou então aqueles que temos enquanto ganhamos coragem para nos levantarmos e esquecer o frio que faz fora do vale dos lençóis! Eles são sempre quase sobre o mesmo, mas representam quase sempre a verdadeira essência de uma antítese. Ora felizes, ora tristes, presumo que tal aconteça com muito mais gente e que muitas vezes esses pensamentos sejam atirados para debaixo da cama. Se eles nos ajudarem a sonhar, por favor, deixem-nos sempre debaixo da cama, como um bom livro na nossa cabeceira sempre disposto a ser lido! Mas, se assim não for, melhor mesmo é leva-los para a rua e encontrar uma resposta. E se quiserem encontrar uma resposta, é melhor encontrarem-na por vocês! Não vamos ser hipócritas e encher os quereres e fazeres com as soluções dos outros, daquelas que vemos em livros e assim.

A propósito disso mesmo, hoje vou optar por apelar à fantasia e contar uma estória, a estória d'"O rapaz que se apaixonou pelo vento"! Parte triste de uma história, certamente, com um final feliz!


 

Esta é a estória de um rapaz chamado Txu! Txu vivia numa casa gigantesca, com um maravilhoso jardim, onde costumava passear para reflectir, e com tudo que ele precisava para sorrir! A casa estava decorada a seu gosto, tudo fruto do seu trabalho para a tornar num lugar livre de qualquer mal. Para além do Txu, só os seus amigos entravam em sua casa, e todos tinham um quarto só para eles para que, sempre que quisessem, pudessem lá ficar. Na verdade, Txu sempre dizia que eles estavam sempre lá porque grande parte da sua vida com eles ficava lá guardada. Para ele, isso era a melhor maneira de sempre saber que os amigos nunca deixariam de entrar e de manterem um lugar cativo em sua casa! Porém, apesar do Txu gostar realmente dos seus amigos apaixonadamente, ele nunca deixou nenhum deles entrar no seu quarto. Não existe uma explicação muito certa para isso, simplesmente, ele nunca os chegou a convidar, nem eles nunca lhe chegaram a pedir tal coisa.


Um dia, numa bela manhã de Verão, Txu acordou e, ainda remeloso, abriu a sua janela do quarto quando, de súbito, sentiu uma doce brisa na cara. Foi inexplicável, nada na sua vida o tinha feito se sentir tão bem! Aquela leve e doce brisa foi a medida perfeita para amenizar o calor do Verão e para o despertar mais Yes! que alguma vez tivera. A partir daí, todas as manhãs Txu abria a sua janela para estar com o Vento. Tinha sido, até essa altura, a única coisa que, para além do Txu, tinha entrado naquele quarto.

Com o passar do tempo, Txu fazia cada vez mais passeios no seu jardim, tentando por em palavras aquilo que sentia! A verdade é que não conseguia, só sabia que se sentia cada vez mais feliz com cada segundo em que o Vento o acariava, passando a sua mão pela cara dele!

Txu, querendo saber mais, um dia abriu a janela e perguntou ao Vento como se chamava! O Vento tristemente respondeu que não tinha nome... Txu abriu o maior sorriso do mundo e disse: "Eu arranjo-te um!". Txu chamou ao Vento Txuca! A partir daí, a sensação de felicidade subiu exponencialmente! O toque de Txuca era fisicamente igual, mas trazia com ele algo que deixava Txu a fervilhar por dentro, um calor mesmo acolhedor e confortável! Txu já ansiava pela manhã, olhando sempre para o relógio para ver se já era hora de dormir! Nos seus passeios pelo jardim, Txu percebeu que precisava de estar com Txuca mais vezes, já não aguentava a espera!

Na manhã seguinte Txu perguntou à Txuca, se podia conhecer a casa dela e a resposta não podia ter lhe agradado mais! A casa da Txuca era muito parecida à de Txu, mas, curiosamente, Txu dizia que a casa de Txuca era inexplicavelmente mais bela! Txu entrou no quarto de Txuca, mas ela não deixou entrar numa outra parte do seu quarto! Txu não percebeu porquê, ele não fazia nenhum tipo de restrição quando ela entrava no seu! Mas não lhe interessou... estava apaixonado por ela! Com o tempo iria conseguir quebrar o gelo, porque o calor que sentia quando estava com Txuca era suficiente para nunca ter que passar frio.

Passou o Verão e veio o Outono! Txu aprendeu a voar com o Vento e, com ela, viajaram pelas mais belas e formidáveis partes das suas vastas casas e jardins! Não havia nada que fizesse o rapaz não querer voar e não havia nada que fizesse o Vento deixar de levar o rapaz consigo.

Porém, com passar dos dias, o Vento começou a ficar mais frio... aproximava-se o Inverno! Pela primeira vez em muito tempo, Txu começou a sentir uma pequena sensação frio e, apesar de continuar confortável com o calor que sentia quando estava com Txuca, ele começou a querer não o sentir. Para isso, sempre que voava com o Vento, Txu agasalhava-se para evitar o frio que Txuca inevitavelmente trazia consigo. Os agasalhos não eram feitos de tecido, eram antes feitos de um material que levavam Txuca a ter que fazer ainda mais esforço para poder levar Txu consigo. Apesar de Txu ficar mais pesado e mais difícil de carregar devido aos seus agasalhos, tudo continuou bem durante o esse Outono!

Chegou o Inverno! A doce brisa já não era mais! Agora Txu abria a janela e Txuca soprava do norte trazendo um gélido frio com uma violência tal que enregelava todo o quarto de Txu em meros segundos! Para se proteger do frio que o Vento trazia, Txu agasalhou-se tanto que Txuca deixou de o conseguir levar consigo. Na tentativa de voar, Txu caiu de bem alto sem que o Vento o pudesse segurar. Preso ao chão, Txu mal se conseguia levantar e tampouco voar. Quando acordou, estava um frio tão pesado que mal conseguia respirar. Sentia a sua alma apertar-lhe o estômago de tão contraída que estava do frio que fazia. Ele apercebeu-se que esse frio não era do Vento. Txuca não soprava ali, nem se quer havia sinais dela. Agarrado ao seu peito, Txu voltou para casa, trancando-se no seu quarto onde ficou a ver os dias a passar, apenas mirando a janela esperando alguma vez ver o Vento soprar.

Chegou a Primavera e, até aí, Txu nunca mais viu Txuca a passar pela sua janela! Salvo raras excepções em que ouvia o Vento soprar, corria para a janela, mas só para encontrar a visão insípida da solidão... Ela não estava lá... Mesmo assim, o rapaz já conseguia sorrir! Afinal antes de ter aprendido apreciar o Vento, ele conseguia fazê-lo com a maior genuinidade! Não havia grande razão para não sorrir. No entanto, todas as noites quando se deitava e estava apenas com a sua própria companhia, Txu pensava em Txuca, na esperança de pelo menos a poder encontrar nos seus sonhos, pois esse era, possivelmente, o único sítio onde podiam estar juntos. Quando acordava, olhava para fora da janela e lembrava-se sempre de como era triste acordar, tal como é triste não conseguirmos agarrar o Vento e tal como é triste sentir que se sofre sozinho! Os seus passeios no jardim já não o faziam pensar sobre o como melhor cuidar das plantas, árvores, fontes e animais que lá habitavam, apenas pensava nos sorrisos que lhe tinham sido roubados, esses sorrisos que antes via nas suas viagens pelo futuro. Mas, compensando pelas amargas manhãs, todo o restante dia era um bom escape às pressões da vida e, mais que sobreviver, Txu conseguia viver!

Chegou o Verão novamente, e Txu decidiu novamente abrir a janela! O Vento soprou outra vez na sua cara! Novamente voltou a sentir a brisa que aperfeiçoava qualquer estado de espírito, trazendo felicidade a quem quer que seja. Não soube muito bem como receber esse sentimento, mas, não obstante, sorriu. Porém, a lembrança da sua queda ainda estava bem fresca nas suas entranhas. Um simples olhar para trás era capaz de fazer nascer dúvida no mais óbvio saber. No entanto, Txuca não parou de soprar e Txu não deixou de sentir o bem-estar que isso lhe trazia. De mansinho, sem que ele próprio se apercebesse, seguiu o embalo do seu sorriso, sem sentir que estava pronto para voar novamente.

Passou o Verão, passou o Outono e chegou o Inverno. Agora, o rapaz passava mais tempo no seu jardim, sempre focado no futuro e na sua previsão. O lado probabilístico do seu pensamento assumiu controlo e instalou a dúvida e durante muito tempo cegou qualquer ambição e motivação para querer voar com o Vento. Para Txu, a possibilidade de nunca mais conseguir olhar para a janela com um sorriso era demasiado asfixiante. Apesar de tudo, percebia o porquê de ter caído. Não havia motivo para ressentir-se de algo que, com certeza, nunca tinha nascido de uma vontade alheia. Não se pode controlar tudo e o que não controlamos às vezes é o que mais faz diferença.

Nesse Inverno, Txu ou estava dentro de sua casa ou passava pelos muros de casa de Txuca. Espreitava para ver se a via, mas o jardim da casa onde ela morava tinha uma vegetação tão serrada, que Txu mal conseguia ver para lá dela. Via movimento de vez em quando ao espreitar por pequenas frinchas da vegetação, mas nunca o suficiente para perceber o que se passava. Apenas podia tentar imaginar, nada mais. Quanto mais visitas fazia, mais era a vontade de querer saber. A vontade foi tanta que Txu decidiu esquecer a dúvida e tentou novamente voar. Infelizmente, a dúvida tinha sido escondida e não tinha sido abandonada, e ao saltar para voar, Txu percebeu que o Vento não estava lá para o carregar e caiu novamente no chão, desta vez para se partir em mil pedacinhos, como um peça de vidro que se quebra com um impacto. Txu levantou-se e voltou para casa, sabia o que tinha de fazer.

Nos seguintes tempos, Txu tentou aquecer-se com o Fogo, nadar na Água e plantar na Terra, porém nada se passou como pretendia. O Fogo queimava-o de muito tentar se aquecer, a Água cansava-o depois de muito tentar nadar e a Terra sujava-o depois de muito tentar plantar. Nada parecia conseguir entrar no seu quarto com a facilidade com que Txuca entrou... Txu, não entendia. Não era falta de vontade e motivação, era algo mais. Algo que não conseguia explicar.

Chegou o Verão. Dois clicos depois, Txu acordou e, como outrora, abriu a sua janela. Nem pensou no Vento do Verão, nem esperou que ele soprasse. Já nem se lembrava de como era a sensação, nem tampouco se lembrava de se lembrar da sensação. No entanto, como em todos os outros Verões, o Vento surgiu com o seu toque amolece qualquer coração e abraçou-o com o mais envolvente sorriso! Nesse instante, todas as lembranças saltaram na cabeça de Txu, ricocheteando em todos os sentimentos que começaram a brotar na sua pele. Lembrou-se de como era voar, do nome que tinha dado ao Vento, de como era bom abrir as portas do seu quarto, de tudo mesmo, até mesmo das dúvidas. Nunca nada tinha sido tão claro para Txu. Percebeu porque é que nunca mais ninguém conseguiu entrar no seu quarto e percebeu o que tinha que fazer para fazer com que ele estivesse aberto para quem quisesse e conseguisse entrar. No entanto, nesse instante Txuca sussurrou algo muito baixo ao ouvido de Txu! Era tão baixo que quase foi imperceptível, mas deu para Txu ouvir algo parecido com um "Queres voar comigo?". A vontade de responder era contrastada pelo bem que sentia a toda a hora com a noção de que o Inverno ia chegar eventualmente... O tempo passou e Txu, não deu o salto para voar... Com a chegada do Outono, Txu voltou a olhar para a janela e percebeu que não podia não saltar. Já o sabia desde o início, desde que percebeu tudo o que tinha percebido nesse Verão. A dúvida tinha-lhe cortado as asas e o Inverno chegou trazendo com ele o Vento que ia contra os seus desejos.



A estória acaba aqui... Nem todas as estórias têm um final feliz... Porém a questão fica, "O que é que o Txu se apercebeu naquele Verão?" e "O que é que Txu fez? Saltou? Voou? Caiu? Aqueceu-se? Queimou-se? Nadou? Afogou-se? Plantou? Sujou-se? "... Bem, a verdade é por mais que nos queiramos apaixonar novamente, nunca o vamos conseguir fazer enquanto alguém carregar a chave para o nosso quarto de nossa casa, do nosso coração. Se não tivermos essa chave para a entregar a alguém, o resultado vai ser esperar voar quando só nos podemos aquecer, ou nadar, ou plantar. E assim só nos vão restar queimaduras, frio ou manchas de terra, e nunca vamos ver o melhor lado do defeito que, neste caso, é ser contrastado com tudo que nos pode fazer sorrir. É possível apaixonarmo-nos as vezes que quisermos, precisamos é de estar dispostos a pedir a chave de volta para a podermos dar a alguém novo. Ninguém a pode devolver! Não é algo que se possa dar de volta, só nós é que a podemos tirar de volta! E caso não seja a mais genuína das vontades, nunca a vamos ter novamente nas nossas mãos.

Quanto ao Txu, a estória acabou dizendo que ele sabia que tinha e ia saltar. O que vem para além disso já é outra estória, porque é mesmo assim que a vida funciona. Temos sempre uma escolha a fazer e é nessas escolhas que criamos uma história, a nossa história. A vida nunca será um começo e um "Happily ever after.The End!", é tudo muito mais complexo que isso. Mas cada capítulo da nossa história vai ser pautado por um escolha, a escolha de criar uma nova estória. Essa estória pode ter os mesmos ou ser contracenada por personagens diferentes, depende da nossa escolha. Mas seja como for vai sempre ser uma estória diferente. A chave do coração de Txu ainda voa com Vento e o que poderá acontecer no seguimento desta estória é algo que não posso contar, porque nunca me contaram o resto, só conheço esta estória. Mas a verdade é que o Txu 2 Verões, 2 Outonos, 2 Invernos e 2 Primaveras depois, mais que tudo, adora voar... e só com o Vento é que se pode voar!




Para mim, para os meus amigos e para quem quiser ler! Yes! para vocês!

2 comentários:

Valter PB disse...

Metáfora de génio!

Algo familiar a estória, por diversas razões.
Conquanto, sabes o que acho em relação a tudo isto... Mantenho e reforço.

spark disse...

De mestre!

Temos mesmo de por a conversa em dia em longas jornadas filosóficas ao bom sabor do sushi!
Os ciclos do tempo como objecto de metáfora caem que nem uma luva branca para o nosso próprio ciclo. Que o Vento sopre e que tenhas a energia para o desfrutar.