domingo, 27 de maio de 2012

Loving Fantasy

image by darkbutterfly6 (deviantART)

Volto de novo à escrita porque, para algumas pessoas, seria bom um pouco daquele tempo de reflexão que se tem durante o duche, tal como aquele que eu tive e que me fez pensar no que irei falar aqui. E perguntam vocês, caros leitores, "Onde é que é a escrita de um gajo (sendo ele apenas dono do seu pensamento e do de mais ninguém) vai servir aos demais pensadores do duche?". A reposta é clara, e penso que muitos a compreenderão. Simplesmente parece que as palavras dos outros (contrariamente àquelas que nós repetimos para nós próprios) chegam melhor ao sentimento daquele que, nessas palavras, se apercebe que não estamos tão sós no nosso sofrimento e nas nossas conclusões, porque a verdade é que todos sofremos e todos reflectimos sobre esse sofrimento. Por isso, para essas essas pessoas, e para mim, escreverei hoje... Novamente para dar mais um contributo para a reflexão a todos por quem tenho apreço e aqueles que, no meio de tanto paleio, por acaso, encontrem algo que estariam à procura.


Em todos os recentes eventos não-rotineiros da minha vida que têm passado tenho visto, discutido, lido e sentido o peso das nossa imaginação e de como ela comanda as nossa maneira de sentir e como influencia as nossas escolhas! Curiosamente, isto é um assunto que já há muito faz parte dos meus pensamentos, mas, depois da minha última sessão de reflexão ao som da água do chuveiro, arranjei a motivação para falar sobre ele.

Tudo começou quando na minha aula de Processos de Intervenção no Sistema Sexual e Conjugal a docente diz que é da maior estupidez que se fale no desejo como tendo uma origem biológica ou física (quer estejamos a falar de desejo sexual ou desejo emocional), pois ele é psicológico de uma forma quase absoluta. Caros leitores, não podia concordar mais com esta afirmação.

Para mim, o processo de nos apaixonarmos, simplificando bastante a sua complexidade, deve-se, sobretudo, a duas coisas: oportunidade e fantasia. Por oportunidade, entenda-se, por exemplo, encontrarmos alguém com quem podemos partilhar interesses, intimidade, bons momentos e, no fundo felicidade! E, convenhamos, não é com toda a gente que podemos ter tudo isso! Não nos apaixonamos por toda e qualquer pessoa! Têm que estar presentes os ingredientes que criem o interesse e, na maioria das vezes, um feedback que nos deixem motivados a continuar a ficar interessados. Ora, quando se cria a oportunidade, quando encontramos alguém de quem podemos esperar toda essa felicidade, entra a fantasia! Aliás, reparem na palavra que utilizei - esperar! Somos humanos, caros leitores, e por isso somos dotados da capacidade de nos posicionar um paço à frente daquilo que está a acontecer e naturalmente criamos expectativas sobre o que vamos poder viver e o quão vamos poder ser felizes com essa outra pessoa. Para mim felicidade é isso mesmo! É ter sempre uma fonte de momentos felizes ao nosso dispor ou, neste caso,  ter alguém com quem saibamos que amanhã podemos continuar a ser felizes! E quando falo em fantasia, refiro-me apenas ao acto de fantasiar e criar expectativas, nunca no sentido de criar ilusões estúpidas na nossa cabeça! Longe disso! Adiante... Apesar de não ser uma ilusão, sempre que pensamos no como podemos ser felizes e nos vários cenários em que isso se concretizará, normalmente só imaginamos o momento de felicidade em si, nunca o processo! Vejam isto quase numa na onda de filmes da Disney de "Happily ever after"! Isso não é necessariamente bom ou mau, como explicarei mais abaixo, mas, de facto, a rotina e as palavras que ficam nas entrelinhas desses momentos nunca fazem parte desses cenários porque, lá está, não é por isso que nos apaixona-mos!

O que quero dizer com isto é que nós não nos apaixona-mos pela pessoa somente, mas sim pelo que ela nos pode oferecer no que toca a felicidade e pelo o quão certa será a presença dessa felicidade a qualquer momento! Atenção que falo apenas no apaixonar, não no amar! São coisas diferentes. Para ser sincero, eu nunca fui um crente no amor à primeira vista... Acho que há pessoas com quem podemos partilhar coisas novas e emocionalmente excitantes e isso é um bilhete para que a nossa fantasia trabalhe na construção de uma expectativa de um futuro cheio de sorrisos e daquela sensação incrível de quentinho no peito! Assim nasce a paixão, o estar numa situação completamente nova onde tudo está em aberto e onde não há nada que nos diga que vai correr mal! Muito pelo contrário, temos sempre lá o bichinho da felicidade a pôr-nos numa espécie de êxtase brutal! Nestes momentos é mesmo óbvio o porquê de, dentro de nós, acharmos que nos espera um futuro próximo daquele que sempre sonhamos! Como também é claro o porquê de querermos estar sempre com a outra pessoa...querer ser feliz é a cena mais básica do ser humano e toda a gente trabalha para isso à sua maneira.
Nós somos facilmente deslumbrados pelo sentimento e entendo que seja fácil confundir paixão com amor. Parece que somos que somos um recipiente demasiado pequeno para tanto sentimento e isso não é algo que sinta ao ir ao supermercado, a correr numa praia, a jogar um jogo de uma consola ou a ter um momento super incrível com um amigo/a.
Amor é o que sobra quando a paixão morre, quando nos apercebemos que conseguimos ser felizes mesmo sem esse êxtase, quando a coisa que mais nos faz feliz é fazer outra pessoa feliz, quando olhamos para a outra pessoa e nos agarramos ao melhor que ela tem... os defeitos são só ornamentos que, de vez  em quando, causam atrito e conduzem ao "fazer as pazes". E a maioria de vós sabe que essas alturas são sempre seguidas de momentos brutais, em que nos apercebemos que realmente gostamos e gostam de nós! Amor demora o seu tempo, mas existe e é bem mais genuíno que paixão.

Bem, fugi um pouco da temática! xD Mas voltando assunto principal! Agora que penso estar esclarecido que falo somente do apaixonar, acho que a maior parte de vós, caros leitores, concordará comigo quando digo que nos apaixonamos muito devido ao facto de nos sentirmos felizes e de, inconscientemente pensar que amanhã o vamos continuar a ser. Essa felicidade faz a cama para que a fantasia torne a nossa opinião sobre a outra pessoa muito simplista. A verdade é que só vivendo e vendo as nossas próprias reacções e as dos outros é que vamos realmente saber o que esperar. Por isso a maior parte das relações não funciona, porque, até um certo ponto, é normal desmotivar quando não recebemos o que esperamos! E nós estamos, constantemente a analisar e avaliar como as coisas estão a ir e, à medida que as nossas expectativas não vão sendo cumpridas, escala-se a ao ponto em que a nossa expectativa sobre o amanhã entra em desacordo com o que nós realmente queremos! Infelizmente o sentimento e a emoção são coisas que vivem no presente e têm memória muito curta e, quando sentimentos bons ou maus surgem muito próximos, é completamente normal que os levemos demasiado em conta.

Mas não pensem que a minha opinião sobre fantasia é negativa, muito pelo contrário! Como disse noutro post, a expectativa e a fantasia são grandes motivadores e grande fonte de criatividade. Ora, se não esperasse-mos ser felizes, acho que seria muito difícil querer investir tempo, corpo e alma numa coisa como uma relação, não acham? E, ao criarmos cenários perfeitos na nossa fantasia, arranjamos formas mesmo dinâmicas e criativas de viver uma vida a dois! Para nosso mal, e para nosso bem, o facto de aos relações serem protagonizadas por duas cabeças pensantes torna tudo imprevisível. Mas, apesar de às vezes ficarmos extremamente frustrados pelo facto de a outra pessoa não seguir o guião que temos na cabeça, é assim que também nasce a genuinidade e a espontaneidade que, a meu ver, valem bem mais do que algo que esperávamos.

No entanto, é verdade que a fantasia e a expectativa podem tornar tudo confuso, especialmente quando não as podemos concretizar! Quando temos um livro escrito com pensamentos inacabados e com perguntas responder, vamo-nos sempre agarrar à angustia de o querer acabar! E acredito profundamente que essa angústia nos faz prender com as mais fortes correntes à pessoa sobre quem o livro fala! E isso perdurará especialmente enquanto deixarmos o livro aberto para que possamos sempre olhar para ele e ver o que não vivemos e o que queríamos mesmo, mesmo, mesmo viver! No meio disto, espero que a angústia não nos limite a uma só rua, porque há muita rua para se explorar e cada uma com o seu brilho especial! E eu sei o quão difícil é largar o que nos é familiar e pelo qual já temos grande sentimento. Já temos algo construído, não é apenas uma rua de asfalto! Temos casas e jardins e um cenário bem mais real do que quando começamos algo! E todos esses pormenores da rua são feitos a partir de memórias e dos pequenos momentos que em nós ficam bem marcados. E ao longo que o tempo passa, quando a saudade nos fizer olhar para esses momentos, vai ser ser aí que lhes vamos dar o real valor e é aí que vamos perceber o impacto que esses momentos tiveram em nós. E se esses momentos forem parte de um livro por acabar de escrever, a expectativa vai entrar em cena e vai remoer-nos porque ela continua a dizer-nos que esses pequenos momentos podiam continuar a existir... Mas agora, neste momento, não existem... e dói... dói muito... Dói não saber o que fazer para os ter de volta... Dói sentir que esses momentos passeiam por outras ruas... Dói saber que não podemos acabar a rua, porque isso é sempre um trabalho a dois! Novamente, felizmente, e infelizmente, não controlamos vontades para além da nossa. E espero também que ninguém desanime por não conseguir fechar o livro ao trocar de rua. Sei bem como isso é, mas sei perfeitamente que é uma questão de oportunidade (lá está) e perseverança para que se mude de uma lágrima para um sorriso parvinho na cara! Até lá temos que aguentar... até que o vento sopre a nosso favor!

Estes foram os 2 minutos de reflexão de chuveiro que tive, muito muito resumidos entenda-se! Também tudo que nos passa pela cabeça não somente é em forma de palavras, mas sobretudo na forma de sentimentos. E eles fazem-se ouvir melhor xD!
O minha conclusão no meio disto é simples! Saibam usar e compreendam o que se cria na nossa cabeça, sem se desculparem por isso e sem se magoarem por isso! Vamos sempre que carregar isso às costas porque para saber o que escolher temos que saber o que queremos... e o que queremos está no futuro, não no presente, nem no passado que já foi! No passado agarrêmo-nos às aprendizagens, no presente agarrêmo-nos às oportunidades e concretizemos a expectativa de como queremos estar no futuro.
Eu ainda não sei, mas não deve ser suposto ser assim tão difícil estar com alguém de quem nós gostamos e que gosta de nós. Já se diz por aí "When there's a will there's a way!". Por isso, se for assim tão difícil, das duas, uma, ou não gostam de nós ou então somos uma segunda escolha. Nisto ou esquecemos ou lutamos para ser a primeira escolha, até o conseguirmos ou até a fantasia não ser suficiente para suportar o facto de nada acontecer e, aí, nos cansemos de lutar. Nesse momento vamos ter mesmo que ter coragem para fechar o livro e deixa-lo lá na estante, caso contrário ou acabamos por sofrer excessivamente e, com sorte, acabar por ter uma grande história de amor, ou então vamos simplesmente sofrer o tormento de estar sozinho, sem dar espaço para novas estórias!

No final do banho as escolhas ficam claras e só peço aos demais que se identifiquem com tudo isto que o façam também (reflectir no banho, entenda-se)! Não queiram ser a segunda escolha! Sigam o vosso coração e vão até onde poderem ir! Se, quando chorarem, deixarem de sentir que vale a pena, já sabem que têm que trocar de rua, ou pelo menos não se fechar à oportunidade!
Tentando insistindo escrever no livro que já está aberto ou começando um novo, lutemos sempre para ser a primeira escolha... porque aí é que estaremos prontos para partilhar e ser verdadeiramente felizes, porque só assim é que estaremos perto de tornar real a fantasia...

Não deixem de sonhar, mas vivam para sempre o poderem concretizar!

1 comentário:

spark disse...

"Eles não sabem nem sonham, que o sonho comanda a vida, e que sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança, como bola colorida entre as mãos de uma criança!"

Muitos parabéns pelo texto, genericamente as ideias mais simples são as mais geniais e a simplicidade desta mensagem é nela genial.
Dos melhores post's por aqui já escritos, arrisco me a dizer!

Bons banhos!