Recentemente, a propósito de uma cadeira na faculdade, escrevi uma reflexão sobre um livro de Freud chamado "O futuro de uma ilusão". O tema central deste livro é a religião e Freud teoriza que esta não passa de uma mera ilusão. Esta reflexão relaciona teorias de Freud e os meus próprios pensamentos a cerca desta temática e, por isso mesmo, achei que seria interessante postá-la aqui. Peço já desculpa em antemão pela extenção do texto porém o trabalho tinha que ter 5 paginas sem tirar nem por.
Adiante:
"O ser humano, tal como o conhecemos (quase) desde sempre, é o produto contrastado, não só por uma mediação genética, mas também pela metafísica e a consciência daquilo que não é, mas que existe sob forma de percepções. De uma forma mais clara, aquilo que nos torna humanos, num conceito de acção, passa pela totalidade envolvente ou externa, que nos dá base de execução e promove a manutenção de uma realidade interna, composta por impulsos que tendem a manter um equilíbrio entre essas duas dimensões. A percepção, daquilo que é alheio a nós próprios, tende a ser distorcida para satisfazer os nossos próprios impulsos ou simplesmente para salvaguardar a sanidade, que, para muitos, constitui uma virtude e componente vital para nos sentirmos diferentes, sem deixarmos de ser iguais aos nossos semelhantes. A possibilidade de se ser diferente por aspectos intrínsecos, sem que, numa realidade aparente, se deixe de ser igual, pode conferir a um indivíduo o carisma que influencia e faz mover massas. Freud, no seu livro “O Futuro de uma Ilusão”, fala-nos de tudo isto, referindo uma das distorções da realidade mais presentes na nossa vida…. A religião. Nas próximas páginas irei tentar descrever a minha própria reflexão sobre a concepção deste autor, no que toca à temática abordada na obra supra-referida, “consciente” que essa mesma reflexão pode ser ela, também, uma distorção da realidade, ou melhor dizendo uma ilusão.
Para explicar o conceito de religião terei que, igualmente a Freud, contextualizar as origens das razões que nos levam a criar realidades e consciências variadas que, por afectarem a nossa percepção das coisas, nos tornam, inevitavelmente, dependentes de uma realidade externa. O ser humano, como espécie, apresenta uma característica quase exclusiva que, apesar de vir carregada com benefícios individuais (se bem que mal distribuídos), impede a manifestação e satisfação de impulsos latentes e específicos a cada um. Essa característica é o facto de vivermos como uma comunidade, de constituirmos civilizações. A civilização pode ser traduzida como uma mais-valia para o ser humano, pois apesar de um indivíduo, nesse contexto, por si só, corresponder a uma parte necessária para a sua sobrevivência, outros, dentro da mesma comunidade, fazem o mesmo para outras necessidades, satisfazendo, desta forma, a totalidade das necessidades básicas requeridas para a nossa própria manutenção e oferendo, possivelmente, com isso, uma melhor qualidade de vida. Caso fossemos mais independentes, nestes termos, a recolha de recursos, necessária para a nossa sobrevivência, seria mais difícil, pois haveria mais competição, a um nível quase extremo, pela posse dos mesmos, para não falar do stress psicológico que estaria implícito ao sentimento de insegurança por não tomarmos como certa a salvaguarda dessas posses. A civilização permitiu não só poupar-nos desta realidade, mas também proporcionou um desenvolvimento populacional, cientifico, intelectual, etc., que permitiu que o domínio humano no mundo prevalecesse e que, ainda hoje, assim permaneça. Com certeza, ter que abdicar da nossa independência (que, no fundo, acaba por não o ser), numa perspectiva quase anárquica, tornou-se na maior e melhor “decisão” colectiva de sempre, mas a que preço? Para um manter bom funcionamento de uma sociedade foi necessário criar um conjunto de regras, de forma a impedir os chamados comportamentos desviantes, que, normalmente, surgiam a propósito da satisfação de desejos e “pulsões”. Freud teorizou que as acções humanas seriam despoletadas por desejos inconscientes, formados numa parte inacessível da personalidade, à qual chamou de “Id” (“das Es”). Os desejos vindos do “Id”, seriam formulados com base no princípio do prazer, isto é, os desejos tinham como finalidade a obtenção de prazer e a evitação de dor, quer física, quer psicológica. Não havendo uma noção de certo ou errado e uma percepção do futuro sob forma de consequência, todos os desejos passavam, de imediato, para um panorama de acção. Neste cenário a necessidade de criar regras para excluir as más condutas sociais era eminente, resultando daí a moralidade, que, juntamente com outros factores, como o “Complexo de Édipo”, culminou na criação de um agente mediador, o “Super-Ego” (“das Über-Ich”). O “Super-Ego” impede a passagem de desejos tidos como “primitivos”( não será a melhor expressão, mas não me ocorre outro termo) aos olhos da sociedade, que, pela sua natureza mais instintiva, podiam, inclusivamente, por em causa o bom funcionamento de uma comunidade. Aqui entra, também, a influência das minorias, que servem como exemplo para com as massas e por isso são vistos como líderes e assumem o controlo, funcionando como uma espécie de forma suprema de uma secção de recursos humanos. Segundo Freud, as massas são hostis para o funcionamento da civilização, pois são preguiçosas, pouco inteligentes e não têm nenhum “amor” pela renúncia dos instintos, e, por essa mesma razão, é necessário alguém que organize e faça a gestão dos seus papéis sociais. É de notar que às minorias está associada uma maior posse de recursos, e talvez por isso assumem, também, tanta credibilidade para liderar. Também o facto de se manter um certo controlo sobre as massas, confere às minorias maior poder de aquisição de recursos, e, se pensarmos bem, a hostilidade presente nas massas reduziria também a totalidade de recursos disponíveis para a comunidade. No sentido de prevenir a hostilidade, a sociedade educa desde cedo as pessoas a gostarem do estilo de vida social, de forma a não criar revoltas, maioritariamente por não haver uma distribuição mais uniforme da riqueza. Não obstante, a natureza hostil das minorias poderia despoletar essas revoltas, e é aí que a religião desempenha o seu papel. Freud fala da religião como uma espécie de bode expiatório para as credibilizar privações feitas pelas normas sociais, criando a ilusão de um conceito de bem e mal que conduziria ao bem-estar comum. O facto de não controlarmos a Natureza, de não compreendermos tudo e todos e o medo da morte cria em nós um sentimento de impotência, que é apaziguado pela sensação de protecção oferecida pelas figuras veneradas pela religião, os deuses. Na cultura ocidental, onde predomina o cristianismo, a figura de Deus é que se destaca. Se contrastarmos essa figura com a perspectiva Freudiana, apercebemo-nos que Deus faz parte do desenvolvimento de indivíduos desde há enumeras gerações. Freud explica que enquanto crianças vemos a figura paternal como protecção, no entanto à medida que crescemos e nos tornamos, aparentemente, mais conscientes da realidade, percebemos que essa protecção é tão vulnerável quanto nós e, é aí que trocamos de figura paternal, passando do pai para Deus. Desta forma cria-se a ilusão de uma protecção oferecida por uma entidade que nos dá um sentimento de continuidade se, e só se, correspondermos à sua doutrina, que neste caso são a suposta base das regras sociais. A meu ver, a sensação de um possível desamparo, ou até mesmo a percepção de que podemos estar a enfurecer divindades, cria medo até naqueles que não acreditam em Deus, porque uma ilusão não pressupõe que algo exista ou não num contexto real, porque é impossível averiguar empiricamente se existe essa entidade, nem podemos provar que ela não existe. Na minha perspectiva, a religião foi criada pela civilização, não só para aliviar a sua ansiedade perante à carência de conhecimento, que conduziria a sensação de inutilidade e falta de controlo sobre aquilo ao qual não se tem resposta, e como meio para nos salvaguardar do conceito que é a morte, mas também para percepcionar uma entidade que, em si, concentrava o poder absoluto. A referência de um deus trás consigo, a noção de poder, imortalidade, etc., ou seja, tudo que é desejado pelo “Id” e tudo que faz parte do princípio do prazer. Nesse seguimento penso ser lógico olhar para figuras como Deus como uma espécie de meta a atingir. Esta sede de poder diz respeito ao facto de um ser humano, por natureza instintiva, querer ter sempre a percepção que existe alguém mais miserável que ele próprio, para se sentir mais poderoso ou ter a sensação que não está no “fundo do poço”. Esta ideia, a meu ver, é reforçada pelo princípio do prazer e o “Thanatos”, no que toca à agressividade perante os outros com o objectivo de obtenção de prazer. Porém, não categorizo a religião como algo de completamente inútil, porque na verdade, apesar achar ridícula a credibilidade a que lhe está associada, existem aspectos que podem ser úteis, pelo menos para as massas. O conceito de fé, sempre esteve ligado à religião e dizem que esta move montanhas. E eu concordo, pois as pessoas, por estarem envolvidas na ilusão de que não se está só, sentem-se mais motivadas para viver e agir e, por essa mesma razão, a fé adquire tanta utilidade. Numa perspectiva de “mind over the matter”, o facto de as pessoas estarem convictas que se vão curar de uma doença ajuda no processo de recuperação. Penso que isto é observável exemplificando com as idas a Fátima, onde as pessoas fazem promessas à santa para que lhes seja retribuído um pedido, e acho lógico que o desejo se realize, não porque fazendo o “sacrifício” probabilidades do pedido se concretizar vão aumentar, mas simplesmente porque se acredita. Não obstante, volto a notar que isto não é requisito para viver, porque a fé é uma forma de dependência que apenas será útil para os indivíduos que não acreditam em si e não acreditam naquilo que podem fazer. Desta forma, pode-se dizer que a religião satisfaz os desejos instintivos, não de uma forma material, mas sim mental. Aspectos como o mandamento “não matarás”, tornam a pressão psicológica exercida pelo medo tido a Deus útil, se o considerarmos como uma forma suprema indiscutível de mais-valia. Freud salienta, também, benefícios da religião, como, por exemplo, o facto de poupar muita gente de ter neuroses individuais.
Em jeito de conclusão, penso que podemos percepcionar a religião como uma forma de ilusão em massa, criada a partir da necessidade de distorcer a realidade, para atribuir, à vida, um significado e uma noção de eternidade, que mais tarde foi aproveitada como fonte de enriquecimento sob variadas formas. Com o avançar dos tempos a objectividade da ciência parece começar a prevalecer sobre falta de conteúdo da religião, e isto poderá dever-se a uma consciencialização em grande escala das massas das civilizações, proporcionada pelo aumento de exigências da própria sociedade (o que não deixa de ser irónico) com eventos como a revolução industrial. Freud acreditava que se às crianças fosse doutrinado o conhecimento científico em vez da religião, elas acabariam por ser mais inteligentes e menos mentecaptas. Apesar de isto poder passar por mais uma ilusão, como a religião, há algo que podemos ter a certeza… A certeza que a ciência não é uma ilusão."
Sem comentários:
Enviar um comentário