quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ensino Profissional vs Ensino Pessoal

Primeira palavra: Férias
As seguintes são só devaneios sobre o quão desajustada é a educação, pelo menos no nosso país. Isto fez parte de um trabalho que fiz a propósito de educação... Triste é dizer que tirei 13 porque não fiz algo que fosse explicitamente enquadrado com a matéria que vinha no livreo do professor... Yeay para a flexibilidade e prevalência da crítica construtiva! Whatever... 

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Férias!!!!!!!!!


“The aim of education should be to teach us rather how to think, than what to think - rather to improve our minds, so as to enable us to think for ourselves, than to load the memory with thoughts of other men.”  ~ Bill Beattie
            Nos dias que hoje decorrem, emerge uma noção cada vez mais clara de que as massas continuam a caminhar para uma vida recheada de demagogia e ignorância, marcada por um individualismo sem a virtude e a consciência que, muito provavelmente, facilitariam a manutenção e o empoderamento de um bem-estar e, quem sabe, de um maior controlo dos seus “destinos”, chamemos-lhe assim. Apesar de se tratar uma realidade que tem movido muitas opiniões e que levou à reorganização de um sistema educacional, o que é que realmente falhou (e ainda vai falhando) para que ainda estejamos incertos da credibilidade, quer das ideologias e modelos educacionais, mas sobretudo de metodologias que reflectem essas ideologias, isto é, será que a teoria corresponde à prática? Nesse sentido, serão reflectidos e discutidos, neste documento, alguns dos pontos que, a meu ver, são fulcrais para que se consiga combater esta tendência geracional de perpetuação de uma inércia característica desse individualismo que apenas está consciente dos microssistemas em que se move. 
             Ao longo da minha vida escolar e académica existiram diferentes fases marcadas por pontos de ruptura onde que houve algum tipo de insight, que mudou a minha postura face ao ensino. Apesar da pluralidade de contextos desses pontos de ruptura, fui capaz de isolar algumas consistências neles – todos foram despoletados por e serviram como uma dose acrescida de motivação e todos acabaram por ser, de alguma forma, uma experiência prazerosa, num sentido hedonista. Nesse sentido, queria discordar com todas as abordagens feitas à educação, não pelo seu conteúdo, com o qual estou certamente de acordo, mas na sua aplicação como se tem feito pelo menos em Portugal. Antes de se educar tem que se tornar claro para os educados o porquê de terem que ser educados e tal é imprescindível para uma educação funcional e motivada. Porém põe-se aqui um problema, como podemos explicar isto a crianças da primária, básico e até mesmo a adolescentes do secundário? Certamente não será pelo diálogo, às crianças já lhes basta ter que ouvir ao longo da sua vida que para serem bem sucedidos têm que estudar, coisa que não parece fomentar o interesse de uma forma mais geral. Um sentido dirigido para o hedonismo deveria de estar presente em qualquer metodologia de ensino, pois esse é um dos principais factores motivacionais que existe, sobretudo para crianças. Não será certamente a partir de uma lógica de imposição que se pretende elucidar e interessar indivíduos, são necessárias abordagens mais dinâmicas, melhor preparação dos educadores e uma convergência e coerência entre os vários educadores. A verdade também é essa, é muito difícil educar alguém para algo se existir essa incongruência entre professores e pais, aquando uma idade mais tenra. Não podemos educar para a política, por exemplo, se os pais em casa dizem que não votam porque políticos são bolas do mesmo saco. Trata-se de uma perpetuação de uma mentalidade demagoga que só mudará naturalmente depois de muitas gerações, mas que poderá ser atingida mais rapidamente com um ensino mais assertivo e menos atabalhoado. Uma das cadeiras que agora vejo ser de extrema importância é a de educação cívica, no entanto quando a tive no meu 6º ano, salvo o erro, sentia que era desinteressante, até porque nem se chegou a falar de rigorosamente nada. O professor, normalmente o director de turma, fazia o seu papel de verificação de faltas enquanto os alunos conversavam sobre tudo menos sobre algo que os fosse tornar melhores cidadãos no futuro, até porque não me parece que seja um objectivo presente e, tão pouco, consciente em crianças dessa idade. Nesse seguimento, é da minha opinião haver uma reestruturação das metodologias de ensino, porque não se adequam os conteúdos à capacidade real de aprendizagem de crianças com essa idade e porque não há formação específica para os professores, que basicamente são sobrecarregados com cargos e responsabilidades, para as quais não estão minimamente preparados. Essa reestruturação deveria de ser feita incidindo sobre, pelo menos, estes sete pontos:
(i)                 Optar por uma educação mais afectiva e positivista, de forma a não negligenciar as necessidades de afecto e de busca de uma experiência mais revigorante por parte dos alunos. A motivação vem do reforço do sentimento de auto-competência e de admiração pelo docente, cuja empatia e carisma deve ser suficiente para suscitar, no discente, o desejo de querer autonomamente se desenvolver pessoal e socialmente.
(ii)               Ser mais sensato e realista no timing de exposição de certos conteúdos às populações estudantis. Não se vão conseguir desenvolver cidadãos conscientes ao mostrar como se podem tornar em bons cidadãos, se não houver uma longa e subtil interiorização do que se entende por e porque é que é preciso ter bons cidadãos, caso contrário vai-se normalizar e banalizar essa intenção e esta acabar por passar ao lado de muita gente.
(iii)             Tem que existir uma maior sensatez por parte das empresas públicas e privadas de comunicação social. Uma das maiores ferramentas educacionais das últimas gerações é a televisão e esta tem sido a principal fonte de mudança de mentalidades dos tempos que correm. Neste presente momento, dificultam a aquisição de características como a virtude e a sabedoria, porque cultivam superficialidades e criam novos desejos que apagam a noção de que todos fazemos parte de uma sociedade governada por nós e que para que ela melhor funcione temos que ser senhores de nós próprios e que devemos de agir com consciência e segurança no que achamos estar certo, caso contrário estamos a cair num poço de ignorância. Para além disso as massas, sobretudo adolescentes e crianças, estão mais susceptíveis de “crescer demasiado rápido” e acabar por ser, muito provavelmente, confrontadas com situações com as quais não têm capacidade para lidar e isso pode por demasiado em causa. Para “remediar” isso são precisos mais psicólogos, mas falemos disso noutra altura.
(iv)              Dinamizar as formas de ensino e as formas de interacção com os estudantes. Passar conhecimento explícito com uma política de “porque tem que ser” nunca ira motivar os alunos, ainda por cima por uma forma tão rudimentar como o contexto sala de aula, onde temos um orador e ouvintes. Eu, normalmente, aprendo mais com um documentário do que com uma aula onde um professor fala para mais que 30 alunos de uma vez. É necessário ser mais prático e menos teórico porque, para além de se aprender mais, torna a experiência mais interessante e mais cativante.
(v)               Trabalhar mais em consonância e de forma mais funcional em conjunto com os pais. Os pais ou os encarregados de educação dos estudantes são uma fonte fidedigna para os educandos e, como tal, existe uma grande possibilidade de transmissão de informação e experiências adversas. Nesse sentido deveria de ser mais aprofundada a consultoria de pais com professores competentes, não no sentido formativo, mas de uma perspectiva informativa. Apesar de ser utópico confiar na sensatez e civismo de todos os pais, não deixa de valer a pena, pois pode sempre fazer a diferença.
(vi)             Responsabilizar os estudantes ao longo do tempo e subtilmente com actividades específicas e dinâmicas.
(vii)            Criar um sistema mais justo de avaliação de competências.
Esta lista fica em aberto, pois poderá tratar-se de mais uma opinião falível e infundada.
Relativamente ao ponto (vii) ainda haverá mais a desenvolver. Porquê afirmar que não temos um sistema de avaliação justo?
      Para responder a essa pergunta é preciso saber para o que está a servir agora a educação e, nessa ordem de ideias, fico perante dois cenários: ou é para nos formarmos como bons profissionais (num sentido mais explicito) e, se assim for, as metodologias de avaliação não serão desadequadas, são apenas limitadas, ou para nos tornarmos pessoas capazes de governar a nossa vida e ser um elemento útil da sociedade. A meu ver o cenário que vai mais de acordo com o pressuposto teórica em que se assenta a educação é o segundo, obviamente. Porém com um ensino tão factual, que não puxa as pessoas para uma exploração extra-aulas, é impossível um cenário que requer muito mais que isso. O facto de o ensino ensinar tão pouco podia ser compensado por um sistema de avaliação mais dirigido à parte mais implícita do conhecimento, porém tal não se verifica e isso só fomenta o chamado “marranço” e o “copianço” em testes e exames. Parece que existe um interesse em sobrecarregar a memória dos estudantes com teoria que vai acabar por se perder no esquecimento porque só foi usada para ter a aprovação a uma determinada disciplina! Obviamente não se aprende muita coisa e é uma maneira forçada e pouco eficaz de fazer os alunos estudarem. Denote-se que isto apenas diz respeito a temáticas mais subjectivas do ensino, porque as mais objectivas, como matemática apenas têm um resultado, ou está certo ou não. Poder-se-ia perfeitamente puxar pela criatividade dos alunos e fazê-los responder a coisas que pressuponham que estes tenham reflectido e não memorizado para depois despejar tudo o que lerem no livro indicado pelo docente ou pela instituição. Os professores têm que ser mais flexíveis aí e, no fundo, empenhar-se mais em vez de optar por critérios estandardizados, isso sim não é justo. Um outro grande problema surge quando temos que ser avaliados informalmente, isto é, por exemplo, quando nos candidatamos a um emprego ou até ainda ao ensino superior. Eu posso ser uma pessoa perfeitamente capaz, e até mais que os outros, para desempenhar determinada tarefa, porém, por factores alheios a competências cognitivas, não fui capaz de obter uma classificação que me permita seguir um curso que sinto ser mais adequado aos meus gostos e capacidades e com isto perde-se, provavelmente, um profissional competente e com motivações mais sólidas para o ser. Infelizmente existe esse preconceito ou estigma de que atribui uma razão proporcional entre classificações e inteligência, construídas a partir de uma concepção estática de capacidade que leva a muita discriminação e desperdício profissional.
            Em jeito de conclusão, na minha perspectiva a educação em Portugal peca pela falta e disfuncionalidade das matérias supra-referidas. O crescente individualismo, que se verifica nas zonas mais urbanizadas, reflecte a falta de sentido comunitário e de um espírito de uma sociedade democrática consciente. A falta uma consciência crítica face à realidade impede-nos de ter um perspectiva macrossistémica da vida e isso induz a necessidade de criar barreiras e de nos gerirmos “olhando só para o nosso umbigo”. Tal torna-se disfuncional uma vez que vivemos numa sociedade em comunidade e, por essa razão, não existe assim tanto espaço para o egoísmo Se todo tivéssemos as mesmas oportunidades seria tudo mais, mas, como tal é impossível, tem que se actuar sobre a educação, pois ela é um dos maiores influenciadores de formas de agir e, subsequentemente, pensar. É preciso dar um novo rumo à educação tendo em conta o mais preciosista dos factores, pois trata-se de um assunto sério e fulcral em diversas vertentes. Queria também alertar para a falta de incentivo e oportunidade ao estudo para as classes económicas mais baixas, bem como ao investimento deficitário quer na educação quer nos profissionais que se formam e se vêem obrigados a emigrar para terem oportunidade de serem bem sucedidos. Já como dizia Benjamim Franklin, “Investir no conhecimento dá sempre os melhores juros”.
          Por fim gostaria de louvar, não obstante, o aparente esforço em Portugal em dar ao povo o conhecimento que ele precisa para se governar, especialmente desde a época do 25 de Abril. É realmente importante dar mais oportunidades para as pessoas crescerem em vez de as tentar formatar com conhecimento impingido, pois, já como dizia o Marquês de Vauvenargues, “as coisas que sabemos são aquelas que não nos ensinaram”.

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